Todavi(d)a

O quarto frio e escuro refletia o seu estado de espírito. O relógio de cabeceira marcava três horas da manhã. Sua mente marcava apenas mais uma hora em frente ao computador. Bianca estava no auge de sua juventude, vinte e três anos. Com a energia de uma senhora  de setenta – não dessas senhorinhas que fazem academia e têm mais energia que qualquer adolescente de quinze anos na hora pular em cima de um jump, mas daquelas que o máximo de aventura que conseguem ter é a de assistir o vale a pena ver de novo enquanto terminam de fazer a barra das calças que seu neto do meio trouxera no último final de semana. Pensando bem, Bianca não teria energia para consertar roupas e assar pães de queijo. Eram vinte e três anos com o entusiasmo de um vegetal.
Seu cabelo cor de mel combinava perfeitamente com o verde esmeralda que coloria seus olhos.  Era feita de uma beleza clichê, assim como era feita de uma vida clichê. Ia para o escritório todos os dias úteis da semana com o HB20 branco que ganhou assim que tirou a CNH, saia às dezoito e trinta, chegava às vinte, devido ao engarrafamento. Passava a noite no computador. Todo final de semana ia ao happy hour com o pessoal do escritório. Namorava  sério um rapaz de nome Pedro, do setor de contabilidade. Bianca tinha a vida que sempre havia imaginado. E, contrariando todas as suas expectativas criadas durante a faculdade, não conseguia se imaginar mais infeliz.

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Cartola tocava no media player. O mundo era mesmo um moinho, pensou. O telefone começou a tocar. A música não a deixava ouvir o telefone, assim como seus pensamentos não a deixavam ouvir a música. O telefone voltou a tocar. A música terminou. Finalmente o telefone parou. O mundo já havia reduzido suas ilusões a pó.
Sua vida era perfeita, diziam. Não podia querer mais, falavam. Você tem tudo que precisa ser feliz, pensavam. Mas não era, contestava. Em cima do criado, uma garrafa de Jack pela metade. Um copo vazio, com gelo já derretido.  Desligou o computador. Bebeu mais um copo de uísque. Amanhã acordava cedo, pensou. A ideia de voltar para aquela monotonia de sempre não lhe agradava. Queria ter coragem de sair dali, ir para bem longe. Sumir. Um lugar que não pudessem encontrá-la, onde não precisasse dar satisfação a ninguém. Viveria, apenas. A ideia de ir e não mais voltar, essa sim, lhe agradava.

Bebeu mais um copo de uísque, agora, com gelo.  Dormiu.  Acordou atrasada para o trabalho, como em toda segunda-feira.