O céu escuro iluminava meus pensamentos. Não que essa frase faça algum sentido, mas aquela vasta escuridão fazia com que meus pensamentos se iluminassem feito estrelas. Estrelas, porém, mortas. Uma estrela cadente, bela e brilhante no céu caindo em forma de pedra, meteoritamente sem graça.
Seus olhos profundos e esverdeados me olhavam do outro lado da rua. Olhos vazios. Olhos de lente fotográfica, que percebem mecanicamente a vida passar. Ao cumprimentá-la, sorriu. Seguiu seu caminho. Não mais a vi, como uma cadente. Rápida, triste e encantadora. Antes que se pergunte, não a conhecia. Uma estranha do outro lado da rua com aqueles olhos que teimo em dizer que não a pertenciam, eram de alguém que convivi tempos atrás. Uma verdadeira estrela. Morta.
Nostalgicamente começo a me lembrar de janeiro daquele ano. Foi quando Antares me deixou. Quando me deixou em corpo, pois em alma aqueles olhos já haviam me deixado há meses. Antares foi minha amante. Minha melhor amante. Casado com uma mulher bem mais velha que eu, sempre precisei de vários amores para não sentir diariamente o amargor do beijo com gosto de dólares. E como eu disse, dentre elas, Antares fora a melhor. Por exatamente 10 anos, minha fiel meretriz.
Antares era puta. E das melhores. Trabalhava as terças, quartas e quintas. Mas, para mim, com horário especial às sextas. Ah, erámos dois loucos e apaixonados amantes. Seus olhos brilhavam quando me viam. Já havia se deitado com inúmeros homens, mas seu coração guardava a pureza de uma virgem. Até me conhecer.
Pouparei os detalhes românticos de quando nos conhecemos e nos apaixonamos. Como já mencionei, por dez anos fomos fieis amantes. Claro, fui fiel à todos meus amores. Mas Antares era diferente, seu brilho era incontestável. Talvez, por isso escolheram Antares para seu codinome no bordel. Era, sem dúvidas, uma estrela.
Seus olhos, apesar de fundos, brilhavam. E brilhavam ainda mais quando me via. Era incrível. Mas nem todo brilho é eterno, tenha isso em mente. Caindo feito uma cadente. Aos poucos sua felicidade esvaiu-se. Antares não mais era uma estrela. Não realizaria meus desejos. Apenas uma pedra. Oca. Olhos profundos. Nenhuma vontade de viver. Fingia estar feliz. E, assim, a perdi. Deixando apenas suas fracas encenações sobre o que sentia por mim.
Não conseguia suportar a dor de perdê-la, sem ao menos entender o porquê. Seria tão difícil assim fazê-la voltar a (minha) vida?!. Comecei a imaginar que, talvez, sua alma teria sido vendida a algum outro varão qualquer. Não conseguia mais dormir. Precisava de Antares como quem precisa de água no deserto. Passava noites em claro imaginando-a sorrindo verdadeiramente para outro rapaz. Por meses fiquei submerso num filme horror indescritível. Passei a imaginar coisas terríveis que não me atrevo a contar.
Meses depois, resolvi, então, que precisava libertar sua alma. Antares deveria brilhar eternamente. Fui visitá-la. Não saí do clichê, ofereci gentilmente a ela: uma taça de vinho tinto ( e cianureto). Talvez por obra do destino, seus olhos brilharam ao ver a taça. Antares sorria. Agora pálida, azul e livre.
by Ana Carolina de Sousa
domingo, 15 de junho de 2014