O primeiro a gente nunca esquece !


Achei - por vaidade,não nego- que este assunto merecia um post de comemoração : publicaram um artigo meu e não foi não meu blog, rá. Ano passado, fiz um texto/prova na disciplina de Linguagem Jurídica, a professora gostou muito ( não só dele,mas também dos de outras 3 pessoas da minha sala) e resolveu tentar publica-lo em algum jornal de circulação local ( não sei se conseguiu) e no site da PUC Notícias. Meu artigo foi publicado em julho do ano passado e só HOJE eu fui ver o e-mail da minha professora contando ! Bem, fiquei feliz por ter um texto publicado assim e quero compartilhar com vocês :


Clique aqui e leia meu artigo !

Ao entardecer

              Era sexta feira e como em todos os dias da semana,durante a tarde tomava meu chá enquanto,da janela, observava Joana, uma jovem que morava no 302 e por vezes ficava na área de lazer do prédio, a qual era a vista da janela do meu quarto.Era uma mulher diferente daquelas que costumavam morar ali, não era velha demais como a do 202 nem nova demais como a do 304, tinha seus vinte e poucos anos.Não era isso,claro,o que me incomodava nela,nem o fato de passar horas lendo perto do playground cheio de crianças que não se importavam em gritar o tempo inteiro (confesso uma certa inveja a tamanha concentração nos livros em meio a tanta algazarra feita pelos pequenos,mas não vem ao caso),tampouco o seu andar tímido e rápido que faziam  a assemelhar a um ratinho de biblioteca.O que me intrigava era seu olhar.Possuía pálpebras pesadas capazes de guardar aqueles enormes olhos combinados com enormes cílios castanhos,era um olhar sonolento mas ao mesmo tempo forte e desperto. Ela não era uma moça bonita,nem parecia ser vaidosa.De  qualquer forma, Joana sempre me deixou incomodado, ora por seu jeito excêntrico ora por seu jeito quase invisível de se portar. Ela não me atraía, mas me mantinha curioso em relação aos seus pensamentos todos os dias que eu a avistava pela janela. 
                Como mencionei no inicio, todas as tardezinhas costumava observar Joana lendo e as crianças brincando enquanto  tomava meu chá diário ( costume meio deturpado que trouxe de vovó,uma legítima inglesa).Entretanto, nos últimos dias comecei a sentir falta da protagonista da cena que assistia todos os dias. Joana deixou de ir ao playground  para realizar suas leituras diárias. E sua ausência me incomodou ainda mais que sua presença, fato que eu nunca imaginara.Pensei em bater a porta do 302 e perguntar como estava, porém nunca havíamos trocado mais que os olhares da janela.Cheguei às conclusões obvias de que ela havia mudado sua rotina,talvez estava no período de provas da faculdade,talvez tivesse um novo emprego no período vespertino...me dei conta que não a conhecia. Não sabia se estudava,se trabalhava,se tinha irmãos,por onde andava sua família que nunca havia visto no prédio.Joana era um mistério pra mim e o desaparecimento de Joana era, senão, um mistério ainda maior.
                Uma semana após o sumiço de Joana, quando voltava do trabalho ( já tarde, por volta das 23h) esbarrei com ela no corredor do prédio. A lâmpada não funcionava muito bem e mal consegui ver a garota. Consegui identificar ao ver aqueles olhos enormes e sonolentos na minha direção seguido de um suave pedido de desculpas por ter tropeçado em mim. Quando a vi mil coisas se passaram pela minha cabeça: deveria perguntar por que sumiu? Por que deixara minha cena do entardecer tão tediosas? Por que não sabia nada sobre ela? Deveria me apresentar. E enquanto  me fazia tantas perguntas sobre o que questionar a ela,ela sumiu. Parecia estar assustada ( apesar de sempre parecer assustada,estava dessa vez diferente) e por que tão apressada?.Lembrei-me de como Joana me incomodava.
               Dei de ombros, estava muito cansado para pensar na menina esquisita do prédio.Comecei a subir as escadas.Ouvi um ruído.Parei.Voltei. “Senhor”- era Joana,quem dizia. “Pois não?” tentei ser o mais atencioso possível,não era sempre que conseguia a atenção daquela garota. “ sentiu a minha falta?” quando ela disse isso não pude controlar minha cara de surpreso ao saber que ela percebia a minha existência,porém não podia entregar o meu passatempo tão rápido àquela mulher misteriosa. “ Como?” respondi.  “Não sentiu falta de mim?lendo enquanto você me observava.”.Tentei negar,quem ela pensava que era ? pensava que tinha toda a minha atenção para aquelas mãos finas e pálidas que passavam delicadamente cada folha do livro velho e amarelado, para aqueles olhos  que nunca me olhavam. Ora, era eu quem deveria observa-la e não ao contrario. Observava-a como um cientista observa um rato de uma de suas experiências. Joana era a minha experiência e agora sem mais,nem menos me fazia perguntas, falava comigo. “ Joana, é seu nome não é?” “não”  “ mas é claro que é,não minta pra mim. Eu te conheço,se chama Joana” “ sou Isabelle”. Puxei-a para a luz. Olhei-a de baixo para cima, aquelas mãos,aquele rosto,aquele olhar. Era Joana! Por que brincava comigo?. “ Por que Joana?” ela perguntou .“Donzela de Orleans,talvez , uma bruxa , uma santa” respondi pensativo. “O que você quer de mim?” perguntei. “Quero que se lembre de tudo que tem feito nas ultimas semanas, quero que se lembre quem você é. Quero que se lembre porque estamos aqui,porque sou Isabelle e não Joana.Quero que diga o que fez com Joana.” “ Mas você é Joana,eu nem conheço ela aliás, o que você quer?” “ me conte o que você sabe sobre Joana” “ bem, não sei nada. Uma jovem ríspida, intrigante que todos os dias pela tarde lia na área de lazer enquanto eu a observava tomando meu chá com três gotas de adoçante – três gotas e nada mais.Ela era o rato do meu laboratório, as mãos finas que passavam as paginas dos livros, o rosto pálido iluminado pelo pôr do sol, os olhos pesados. Olhos iguais aos seus. Por que seus olhos e suas mãos são tão iguais as de Joana? Embora a face seja ao mesmo tempo igual e diferente? O que você fez com Joana? Há dias não a vejo. Ela me faz falta. Mas veja,por que você  me perguntou se fazia falta a mim se não é Joana? Por que dizia que eu a observava?”
          “Se acalme, tente se lembrar da ultima vez que viu Joana.” “ Estava na janela,observando-a. Ela  passava as páginas com rapidez, certamente era um livro de suspense daqueles que mal esperamos para chegar ao final. Joana tem cara de suspense. Tem cara de donzela de suspense. Tem cara de assassina. Tem cara de bruxa.Tem cara de santa. Queria falar com ela, ver se era um livro de suspense. Eu gosto de livros de suspense. Poderíamos encenar um. Eu seria o investigador da morte da donzela, ou queimaria a assassina da donzela, como se fazia com as bruxas na idade das trevas. Mas Joana, ah joana ! tão ríspida.Tão arisca quanto um rato de biblioteca. Eu era como uma sexta-feira e ela como uma segunda feira. Estava tão perto dela e ela tão longe de mim.Queria ler o livro de suspense,parecia tão excitante.Tinha medo de Joana.Mas mesmo assim começamos a jogar” “ a jogar?” “ o suspense, joana já havia desaparecido. Eu estava atordoado com seu desaparecimento. Esperei por uns dias. Fui ao seu apartamento.Arrombei a porta,encontrei-a morta. Não contei a polícia. Estragaria o jogo. Escondi-a  debaixo da cama. Limpei a casa. Consertei a porta. Dei desculpas aos vizinhos e... Foi você,não foi? Foi você quem matou joana! Por que? Preciso queima-la,preciso queima-la”. “ Mas por que escolheu joana para jogar?” “ ela me escolheu.” Isabelle me deixava tão intrigado quanto Joana,e como ousara descobrir meu jogo? Certamente era ela que matou a pobre Joana. Pobre e doce Joana. “ Você sabe que você matou Joana,não sabe?” “ Que absurdo!” joguei um pouco de uísque  ao nosso redor enquanto pegava o fosforo no bolso. “ o assassino deve morrer queimado certo?” disse ela. “ sim,você deve morrer queimada.”  “ mas você a matou,você deve morrer.”  “ foi você” . Isabelle levantou a blusa,os pontos da facada ainda permaneciam. “ Você tentou me matar”. “Quem morreu foi joana”. “ Nunca houve Joana,sempre fui eu, Isabelle” “mas o jogo não teria sentido se não fosse Joana” “eu sobrevivi, seu jogo não teve sentido. Não me chamo Joana, sua personagem nunca existiu. Não era um livro de suspense,era um livro de receitas.” .
            Resolvi atear fogo naquela bruxa mentirosa que me fazia ter alucinações sobre me caçar,e imagine Joana ser Isabelle. Joana jamais falaria comigo. Joana nasceu para estar morta, em uma história trágica.Virgem,pálida e morta como em um poema de Álvares de Azevedo." Acordei da ilusão, a sós morrendo.Sinto na mocidade as agonias.Por tua causa desespero e morro...Leviana sem dó, por que mentias? por que mentias? por que mentias?... ” recitava mentalmente. Não via mais Isabelle, via o fogo desaparecendo em meio ao alerta de incêndio do prédio. Não via mais Joana. Fechei os olhos enquanto lembrava da minha cena ao entardecer.


Da série : textos que me fazem pensar.

 
 Sabe aquele momento em que você se depara com um texto, acha super interessante e quer compartilhar com todos os seus amigos ( por mais que você tem a certeza que a maioria não verá com tanta empolgação) ? Então, mal começaram as aulas de antropologia ( que a propósito tenho o pressentimento que será a ~matéria que eu gosto~ do semestre) e eu já encontrei um texto assim, e claro, quero compartilhar com vocês! É um texto do antropólogo Ralph Linton,sobre o começo do dia do homem americano, aproveitem :


 " O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções europeias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito. 
     Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas. 
    De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar.A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no Norte da Europa.
   Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México.Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano."