Era sexta feira e como em todos
os dias da semana,durante a tarde tomava meu chá enquanto,da janela, observava
Joana, uma jovem que morava no 302 e por vezes ficava na área de lazer do
prédio, a qual era a vista da janela do meu quarto.Era uma mulher diferente
daquelas que costumavam morar ali, não era velha demais como a do 202 nem nova
demais como a do 304, tinha seus vinte e poucos anos.Não era isso,claro,o que
me incomodava nela,nem o fato de passar horas lendo perto do playground cheio
de crianças que não se importavam em gritar o tempo inteiro (confesso uma certa
inveja a tamanha concentração nos livros em meio a tanta algazarra feita pelos
pequenos,mas não vem ao caso),tampouco o seu andar tímido e rápido que
faziam a assemelhar a um ratinho de
biblioteca.O que me intrigava era seu olhar.Possuía pálpebras pesadas capazes
de guardar aqueles enormes olhos combinados com enormes cílios castanhos,era um
olhar sonolento mas ao mesmo tempo forte e desperto. Ela não era uma moça
bonita,nem parecia ser vaidosa.De
qualquer forma, Joana sempre me deixou incomodado, ora por seu jeito
excêntrico ora por seu jeito quase invisível de se portar. Ela não me atraía,
mas me mantinha curioso em relação aos seus pensamentos todos os dias que eu a avistava
pela janela.
Como
mencionei no inicio, todas as tardezinhas costumava observar Joana lendo e as
crianças brincando enquanto tomava meu
chá diário ( costume meio deturpado que trouxe de vovó,uma legítima
inglesa).Entretanto, nos últimos dias comecei a sentir falta da protagonista da
cena que assistia todos os dias. Joana deixou de ir ao playground para realizar suas leituras diárias. E sua
ausência me incomodou ainda mais que sua presença, fato que eu nunca imaginara.Pensei
em bater a porta do 302 e perguntar como estava, porém nunca havíamos trocado
mais que os olhares da janela.Cheguei às conclusões obvias de que ela havia
mudado sua rotina,talvez estava no período de provas da faculdade,talvez
tivesse um novo emprego no período vespertino...me dei conta que não a
conhecia. Não sabia se estudava,se trabalhava,se tinha irmãos,por onde andava
sua família que nunca havia visto no prédio.Joana era um mistério pra mim e o
desaparecimento de Joana era, senão, um mistério ainda maior.
Uma
semana após o sumiço de Joana, quando voltava do trabalho ( já tarde, por volta
das 23h) esbarrei com ela no corredor do prédio. A lâmpada não funcionava muito
bem e mal consegui ver a garota. Consegui identificar ao ver aqueles olhos
enormes e sonolentos na minha direção seguido de um suave pedido de desculpas
por ter tropeçado em mim. Quando a vi mil coisas se passaram pela minha cabeça:
deveria perguntar por que sumiu? Por que deixara minha cena do entardecer tão
tediosas? Por que não sabia nada sobre ela? Deveria me apresentar. E
enquanto me fazia tantas perguntas sobre
o que questionar a ela,ela sumiu. Parecia estar assustada ( apesar de sempre
parecer assustada,estava dessa vez diferente) e por que tão
apressada?.Lembrei-me de como Joana me incomodava.
Dei de ombros, estava muito cansado para pensar na
menina esquisita do prédio.Comecei a subir as escadas.Ouvi um ruído.Parei.Voltei.
“Senhor”- era Joana,quem dizia. “Pois não?” tentei ser o mais atencioso
possível,não era sempre que conseguia a atenção daquela garota. “ sentiu a
minha falta?” quando ela disse isso não pude controlar minha cara de surpreso ao
saber que ela percebia a minha existência,porém não podia entregar o meu
passatempo tão rápido àquela mulher misteriosa. “ Como?” respondi. “Não sentiu falta de mim?lendo enquanto você
me observava.”.Tentei negar,quem ela pensava que era ? pensava que tinha toda a
minha atenção para aquelas mãos finas e pálidas que passavam delicadamente cada
folha do livro velho e amarelado, para aqueles olhos que nunca me olhavam. Ora, era eu quem
deveria observa-la e não ao contrario. Observava-a como um cientista observa um
rato de uma de suas experiências. Joana era a minha experiência e agora sem
mais,nem menos me fazia perguntas, falava comigo. “ Joana, é seu nome não é?” “não” “ mas é claro que é,não minta pra mim. Eu te
conheço,se chama Joana” “ sou Isabelle”. Puxei-a para a luz. Olhei-a de baixo
para cima, aquelas mãos,aquele rosto,aquele olhar. Era Joana! Por que brincava
comigo?. “ Por que Joana?” ela perguntou .“Donzela de Orleans,talvez , uma bruxa
, uma santa” respondi pensativo. “O que você quer de mim?” perguntei. “Quero
que se lembre de tudo que tem feito nas ultimas semanas, quero que se lembre
quem você é. Quero que se lembre porque estamos aqui,porque sou Isabelle e não
Joana.Quero que diga o que fez com Joana.” “ Mas você é Joana,eu nem conheço ela
aliás, o que você quer?” “ me conte o que você sabe sobre Joana” “ bem, não sei
nada. Uma jovem ríspida, intrigante que todos os dias pela tarde lia na área de
lazer enquanto eu a observava tomando meu chá com três gotas de adoçante – três
gotas e nada mais.Ela era o rato do meu laboratório, as mãos finas que passavam
as paginas dos livros, o rosto pálido iluminado pelo pôr do sol, os olhos
pesados. Olhos iguais aos seus. Por que seus olhos e suas mãos são tão iguais
as de Joana? Embora a face seja ao mesmo tempo igual e diferente? O que você fez com
Joana? Há dias não a vejo. Ela me faz falta. Mas veja,por que você me perguntou se fazia falta a mim se não é
Joana? Por que dizia que eu a observava?”
“Se acalme, tente se lembrar da ultima vez que viu Joana.” “ Estava na janela,observando-a.
Ela passava as páginas com rapidez,
certamente era um livro de suspense daqueles que mal esperamos para chegar ao
final. Joana tem cara de suspense. Tem cara de donzela de suspense. Tem cara de
assassina. Tem cara de bruxa.Tem cara de santa. Queria falar com ela, ver se
era um livro de suspense. Eu gosto de livros de suspense. Poderíamos encenar
um. Eu seria o investigador da morte da donzela, ou queimaria a assassina da
donzela, como se fazia com as bruxas na idade das trevas. Mas Joana, ah joana !
tão ríspida.Tão arisca quanto um rato de biblioteca. Eu era como uma
sexta-feira e ela como uma segunda feira. Estava tão perto dela e ela tão longe
de mim.Queria ler o livro de suspense,parecia tão excitante.Tinha medo de Joana.Mas
mesmo assim começamos a jogar” “ a jogar?” “ o suspense, joana já havia
desaparecido. Eu estava atordoado com seu desaparecimento. Esperei por uns
dias. Fui ao seu apartamento.Arrombei a porta,encontrei-a morta. Não contei a
polícia. Estragaria o jogo. Escondi-a
debaixo da cama. Limpei a casa. Consertei a porta. Dei desculpas aos
vizinhos e... Foi você,não foi? Foi você quem matou joana! Por que? Preciso queima-la,preciso
queima-la”. “ Mas por que escolheu joana para jogar?” “ ela me escolheu.” Isabelle
me deixava tão intrigado quanto Joana,e como ousara descobrir meu jogo? Certamente
era ela que matou a pobre Joana. Pobre e doce Joana. “ Você sabe que você matou
Joana,não sabe?” “ Que absurdo!” joguei um pouco de uísque ao nosso redor enquanto pegava o fosforo no
bolso. “ o assassino deve morrer queimado certo?” disse ela. “ sim,você deve
morrer queimada.” “ mas você a
matou,você deve morrer.” “ foi você” . Isabelle
levantou a blusa,os pontos da facada ainda permaneciam. “ Você tentou me matar”.
“Quem morreu foi joana”. “ Nunca houve Joana,sempre fui eu, Isabelle” “mas o
jogo não teria sentido se não fosse Joana” “eu sobrevivi, seu jogo não teve
sentido. Não me chamo Joana, sua personagem nunca existiu. Não era um livro de
suspense,era um livro de receitas.” .
Resolvi atear fogo naquela bruxa mentirosa que me fazia ter alucinações sobre me caçar,e imagine Joana ser Isabelle. Joana jamais falaria comigo. Joana nasceu para estar morta, em uma história trágica.Virgem,pálida e morta como em um poema de Álvares de Azevedo." Acordei da ilusão, a sós morrendo.Sinto na mocidade as agonias.Por tua causa desespero e morro...Leviana sem dó, por que mentias? por que mentias? por que mentias?... ” recitava mentalmente. Não via mais Isabelle, via o fogo desaparecendo em meio ao alerta de incêndio do prédio. Não via mais Joana. Fechei os olhos enquanto lembrava da minha cena ao entardecer.
Resolvi atear fogo naquela bruxa mentirosa que me fazia ter alucinações sobre me caçar,e imagine Joana ser Isabelle. Joana jamais falaria comigo. Joana nasceu para estar morta, em uma história trágica.Virgem,pálida e morta como em um poema de Álvares de Azevedo." Acordei da ilusão, a sós morrendo.Sinto na mocidade as agonias.Por tua causa desespero e morro...Leviana sem dó, por que mentias? por que mentias? por que mentias?... ” recitava mentalmente. Não via mais Isabelle, via o fogo desaparecendo em meio ao alerta de incêndio do prédio. Não via mais Joana. Fechei os olhos enquanto lembrava da minha cena ao entardecer.
by Ana Carolina de Sousa
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013