Da série: poemas

Ah,  mais um do ilustríssimo Drummond :

 CONSOLO NA PRAIA

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Sobre a experiência em animais.


  Depois da Invasão do Instituto Royal por ativistas, que salvou os cães da raça beagle de maus tratos, o assunto repercutiu notoriamente na internet e principalmente nas redes sociais. E como eu prefiro meus animais de estimação do que muuuuuuita gente, resolvi dissertar um pouco sobre o assunto.
  A discussão do uso de animais é antiga,  desde o século XVIII há quem se preocupa com  outros gêneros que não o homo. A questão não é se falam ou raciocinam, mas se podem ou não sofrer. Depois de muito se discutir, hoje,  têm-se a visão ( legal) da experimentação animal apenas quando for NECESSÁRIA, quando não haja absolutamente nenhuma outra de forma de se conseguir o avanço tecnológico  RELEVANTE pretendido. Se necessária, a experimentação, segundo o Conselho das Organizações Internacionais de Ciências Médicas, em seu regulamento de ética,  deve ser o mais indolor possível, e preferir as espécies "menos evoluídas" ou criadas especialmente para tais  experiências.
  Após a invasão dos ativistas ao Instituo Royal, além da discussão do """"""vandalismo""""""" por eles cometido, entrou-se uma discussão sobre a hipocrisia da forma como esse assunto é tratado. Alguns abrem as críticas por serem defensores de animais, as mesmas pessoas que os consomem na alimentação. Não haveria sentido defender alguns animais e se alimentar de outros. OPA. Não é preciso ser vegetariano para defender que animais não devem ser torturados. O consumo de animais para alimentação não é condenável, uma vez que não somos Herbívoros por natureza, assim como nós, muitos animais se alimentam de outras espécies. E mesmo ao consumir carne bovina, por exemplo, deve-se ter toda uma preocupação de como o gado é preparado ( E sim, assim como existem ativistas preocupados com os beagles, existe quem luta pela maior fiscalização dos maus tratos aos bovinos). Existe também aqueles que dizem que as pessoas só estão se comovendo por serem animais fofinhos e domésticos, que ninguém se comove com as cobras do Butantan ou com os diversos ratos e baratas de laboratórios. Como o próprio Cioms determina, deve haver uma preferência para que esses animais sejam usados ao invés dos domesticáveis.  No caso das cobras usadas no instituto butantan, elas são necessárias, por não haver outro método ainda de obter-se, por exemplo, os antídotos. Mas parte-se da pressuposição de que elas recebem um tratamento no qual têm o mínimo possível de sofrimento, por isso, a fiscalização é necessária. O uso de camundongos e baratas também deve ser feito com cautela. ASSIM, como, quando extremamente necessário, o uso de cães, coelhos e gatos.  
É meio óbvio que nós, geralmente, temos maior afeição por cães e gatos, do que por uma barata. Por serem mamíferos, por serem afetivos, por termos uma maior aproximação do que com répteis e insetos. São raros os admiradores de insetos e raros aqueles que têm cobras como animais de estimação ( apesar de serem linnnnndas). Primeiro trata-se de uma questão cultural ( assim como a vaca é um ser sagrado na  índia e cães são usados na alimentação chinesa) . Segundo, por serem insetos e ratos de alta reprodução, são mais utilizados em pesquisas. E, repetindo, quando utilizados, deve isso ser feito com ética.
Atualmente existem várias formas que suprem o uso de animais para experimentação, no Reino Unido, por exemplo, é raríssima a utilização de cães para experimentos. Existem também muitas empresas brasileiras que já não utilizam animais para testar cosméticos (  clique para ver a lista de empresas que não testam em animais, da PEA). 
O problema do Instituto Royal não foi só o de experimentação em cães ( não totalmente necessária), mas também a forma como isso estava sendo feito. Não é hipocrisia querer que animais indefesos não sejam maltratados e torturados em razão de um "avanço tecnológico", sejam eles cães, gatos, camundongos, cobras ou baratas. 

Da série : Poemas que me fazem pensar.

Com vocês, o grandessíssimo Drummond:

Quadrilha 



João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Solidão não se cura com prosa.

Três horas e trinta minutos, era o que marcava o relógio da sala de estar. A madrugada, ao contrário das últimas semanas, estava fria. E Lúcia, assim como nas últimas semanas, olhava para o tiquetaquear do relógio sem nenhuma previsão de sono. Ela gostava de madrugadas. Eram silenciosas. A impressão que tinha era que, diferentemente do que ocorria no restante do dia, durante a madrugada ninguém poderia encontra-la. A solidão se instalava e com ela havia um sentimento ambíguo de tristeza e prazer. Gostava da sensação de não ter ninguém ali. Era uma paz que só encontrava àquela hora do dia. Mas sentia um incômodo, não gostava de sentir-se só. Paradoxalmente queria estar sozinha, sem ninguém que a incomodasse. Mas não queria se sentir sozinha. Lúcia olhava para o relógio, contava os ponteiros, pensava em quantas horas faltavam para ter que acordar e viver. Ou sobreviver, como preferia pensar, sobreviver a mais um dia cheio de coisas vazias a fazer. Entre uma olhada e outra ao relógio da sala de estar, sentava na velha poltrona de seu falecido avô – que ainda tinha aquele estranho cheiro de vovôs. Ria sempre que pensava nisso. Sempre, ao sentar-se lembrava que ali tinha cheiro de avós, e que vovós e vovôs cheiram mais que Chanel número 5, tem um cheiro diferente de todos os outros. Pensava se cheiraria assim quando ficasse velha. Pensava se ainda se sentaria ali de madrugada quando estivesse velha.  Pensava se teria alguém, finalmente, na poltrona ao lado, quando estivesse velha ou se continuaria ali, naquela estranha e prazerosa solidão.  Sentada, escrevia. Rabiscos, devaneios de desejos obscuros que só apareciam ali, ao tiquetaquear do relógio na madrugada.
Três horas e cinquenta minutos. Allan aparecia na sala de estar. Olhava para Lúcia, em meio à penumbra, e sorria. Allan não era o tipo de rapaz que as pessoas julgam bonito, mas tinha seu charme. Era dono do sorriso mais lindo que Lúcia já havia visto e do olhar mais doce. Seu jeito brincalhão e seu sotaque meio britânico encantavam qualquer garota que ficasse em sua companhia por alguns poucos minutos. Lúcia sorria. Era inevitável não sorrir ao olhar para Allan. Ele a fazia querer largar toda aquela solidão. Fazia-a querer abraça-lo e passar o resto da noite ao seu lado, mirando o seu charmoso semblante. Ele a levantava, a abraçava, e quando ela se sentia no céu ao estar nos braços daquele homem, lentamente ele a apunhalava. Sugava todo seu sangue. Toda a sua alma. Deixava-a vazia. 

Quatro horas e quinze minutos. A folha cheia de rabiscos era colocada, com Allan, no lixo. Lúcia estava sozinha novamente, como o de costume. Talvez já fosse hora de se apaixonar novamente.