Solidão não se cura com prosa.

Três horas e trinta minutos, era o que marcava o relógio da sala de estar. A madrugada, ao contrário das últimas semanas, estava fria. E Lúcia, assim como nas últimas semanas, olhava para o tiquetaquear do relógio sem nenhuma previsão de sono. Ela gostava de madrugadas. Eram silenciosas. A impressão que tinha era que, diferentemente do que ocorria no restante do dia, durante a madrugada ninguém poderia encontra-la. A solidão se instalava e com ela havia um sentimento ambíguo de tristeza e prazer. Gostava da sensação de não ter ninguém ali. Era uma paz que só encontrava àquela hora do dia. Mas sentia um incômodo, não gostava de sentir-se só. Paradoxalmente queria estar sozinha, sem ninguém que a incomodasse. Mas não queria se sentir sozinha. Lúcia olhava para o relógio, contava os ponteiros, pensava em quantas horas faltavam para ter que acordar e viver. Ou sobreviver, como preferia pensar, sobreviver a mais um dia cheio de coisas vazias a fazer. Entre uma olhada e outra ao relógio da sala de estar, sentava na velha poltrona de seu falecido avô – que ainda tinha aquele estranho cheiro de vovôs. Ria sempre que pensava nisso. Sempre, ao sentar-se lembrava que ali tinha cheiro de avós, e que vovós e vovôs cheiram mais que Chanel número 5, tem um cheiro diferente de todos os outros. Pensava se cheiraria assim quando ficasse velha. Pensava se ainda se sentaria ali de madrugada quando estivesse velha.  Pensava se teria alguém, finalmente, na poltrona ao lado, quando estivesse velha ou se continuaria ali, naquela estranha e prazerosa solidão.  Sentada, escrevia. Rabiscos, devaneios de desejos obscuros que só apareciam ali, ao tiquetaquear do relógio na madrugada.
Três horas e cinquenta minutos. Allan aparecia na sala de estar. Olhava para Lúcia, em meio à penumbra, e sorria. Allan não era o tipo de rapaz que as pessoas julgam bonito, mas tinha seu charme. Era dono do sorriso mais lindo que Lúcia já havia visto e do olhar mais doce. Seu jeito brincalhão e seu sotaque meio britânico encantavam qualquer garota que ficasse em sua companhia por alguns poucos minutos. Lúcia sorria. Era inevitável não sorrir ao olhar para Allan. Ele a fazia querer largar toda aquela solidão. Fazia-a querer abraça-lo e passar o resto da noite ao seu lado, mirando o seu charmoso semblante. Ele a levantava, a abraçava, e quando ela se sentia no céu ao estar nos braços daquele homem, lentamente ele a apunhalava. Sugava todo seu sangue. Toda a sua alma. Deixava-a vazia. 

Quatro horas e quinze minutos. A folha cheia de rabiscos era colocada, com Allan, no lixo. Lúcia estava sozinha novamente, como o de costume. Talvez já fosse hora de se apaixonar novamente.

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