Aos Capitães Nascimento de plantão.



“Bandido bom é bandido morto”

         Poucos dias após a polêmica opinião da  ~~~Jornalista~~~~  Rachel Sheherazade ( adote um bandido), surpreendeu-me a quantidade exacerbada de capitães nascimento caindo de paraquedas  em comentários do facebook, youtube e diversos blogs/ jornais que publicaram sobre a notícia. A opinião girou a respeito de um rapaz menor infrator (o marginalzinho, segundo a pseudojornalista), acusado por alguns moradores da região de roubo, que foi parar preso em um poste, nú, por um grupo denominado: ~~~~Justiceiros~~~~. E a questão que mais assombra em relação à toda essa polêmica não é apenas o fato de terem feito isso ao rapaz, mas sim o que a grande massa tem dito sobre JUSTIÇA.
         
            Afinal, o que é JUSTIÇA?  Em alguma aula de IED, essa pergunta me foi questionada. E só agora, dois anos depois, consigo ter uma ideia bem subjetiva do que seria a resposta prática. De qualquer forma, a cada dia torna-se mais clara a  ideia de que a justiça não é a justiça de Talião. Olho por olho e o mundo ficará cego, disse alguém.

            Não tem muito tempo, os capitães nascimento do facebook já haviam atacado, com aquele fato ocorrido entre o policial e o rapaz que havia roubado uma moto. Legítima defesa ou não, os comentários foram nessa mesma linha. Ora, ele roubou, tem que morrer. Não é homem de bem. E quem é homem de bem? Você? você que compra coisas no exterior e consegue entrar sem pagar impostos? Você que não devolve o troco errado? Você que vende/ compra bebida pra menor? Você que dá uns amassos no carro? Você, hipócrita de carteirinha que já fez algo que foge da moral e dos bons costumes, ou até mesmo já cometeu um crime ou infração.

             Uma coisa, pasmem, tenho que concordar com a dona Rachel: o sistema é falho. O mesmo direito penal que visa punir, prevenir e RESSOCIALIZAR, segrega. A cada dia que passa os complexos prisionais brasileiros experimentam mais o caos ( e os capitães ainda querem jogar nossas crianças, menores infratores lá). Entretanto, uma coisa é certa, a morte, a tortura de alguém que você ACHA que é criminoso ( o que só pode ser considerado após o transito em julgado), jamaaaaaaaaaaaaaaaaaais serão uma espécie de legitima defesa coletiva .Caetano tem algo a dizer sobre isso, sheherazade :
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             Você, cidadão de bem, que defende coisas assim, essa barbárie toda,  também defende um crime. Exercício arbitrário das próprias razões.  Art.345 do CP: “fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite”. A pena é detenção, de 15 dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência. Notável cidadão de bem, defensor da moral, dos bons costumes, da justiça e de todo esse blablabla, vai ser conivente com algo que superamos desde 1940?!

                        O que aconteceu com o rapaz que foi preso ao poste, independentemente do que ele tenha feito ( mesmo sabendo que criminoso ele não é, ECA meu bem, é no máximo menor infrator), foi desumano. O sistema realmente é falho, a começar pela educação que se de um lado falta a muitos e lhes tiram a oportunidade de serem bem sucedidos, a outros, falta na própria criação, a qual ensina que bandido é bom é bandido morto. A que ensina a segregar e dizer que não existe preconceito. É a que não ensina o que são direitos humanos, direitos universais. É a que forma você, meu querido cidadão de bem. A educação de um sistema falho que vem formando não só capitães de areia, mas também inúmeros capitães nascimento.

tirinha de André Dahmer


Outros olhos.

Naquela tarde ensolarada,  Joana fora se encontrar com uma velha amiga, Bianca. Há anos não se viam. Sua amiga do velho ginásio estava quase da mesma forma: linda e ruiva. Bianca parecia ter tomado banho em formol por todos esses anos.  Encontraram-se em um velho café, na esquina da antiga casa de Bianca. Conversavam. Bem, quase isso. Joana ouviu dizer, certa vez, que algumas pessoas não escutam o que a outra diz, apenas, por cordialidade, esperavam sua vez de falar. Isso se aplicava bem a Bianca. A ruiva dos olhos esverdeados conseguia ser mais tagarela que Joana, e sem nenhuma dificuldade, ignorava o que a amiga dizia, pra contar sua próxima história. A única coisa que havia mudado, aparentemente, desde os tempos do ginásio, era o sorriso de Bianca, que, agora, estava sem nenhum metal. Joana, após algum tempo, fingia escutar. Apenas observava a ruiva falar, falar, falar. Não entendia como eram amigas. Ou como ainda podiam se chamar assim. Seus assuntos se tornaram tão distantes. E a única coisa que as uniam era um laço feito há tempos atrás. As velhas histórias. Por um momento, Joana pensara que Bianca estava muito diferente de anos atrás, sua amiga costumava ser tão legal. Chegou, então, à conclusão de que talvez fosse ela mesma, ela que havia se tornado uma chata. Ou apenas, agora, via o mundo por outro viés. Nada é pra sempre. Ainda bem, pensou. Até breve, disse, sabendo que não se veriam tão cedo.