A arte, o capitalismo e a esquerda.


O capitalismo coloca as atividades lúdicas, o esporte, as artes e qualquer coisa que não seja produtiva com lucro certo na caixinha do lazer. Ora, o trabalhador deve produzir e entregar o lucro ao patrão. Descansar quando chegar em casa. E ter momentos de lazer que são adquiridos com o capital. O lazer é aquela viagem adquirida em 12x pra passar as férias. Aquele filme no final do final de semana (afinal, sobra o fim de semana pra cuidar da própria casa) que passa na tv. O lazer é aquele tempo que sobra entre o trabalhar, estudar/descansar.
O Capital toma o lazer para si e consegue lucrar com o que não gera produto. Vende a altissimos preços ao trabalhador, para que aumente sua produtividade (às vezes não é vendida diretamente, mas é através dela que se vendem os produtos, através do marketing e patrocínios) E o trabalhador o compra para conseguir continuar neste mundo.
Talvez, por isso, a cultura seja em sua maioria vista como algo de esquerda. Por naturalmente não ser atrativa ao capital. 
Entretanto, curiosamente, a cultura não é uma pauta da esquerda. A arte foi palco de resistência das grandes lutas e revoluções. Seja com os poemas clamando independência cubana de José Martí, seja a resistência do Arena e Oficina em plena ditadura brasileira,seja em tempos modernos com chaplin, seja com o teatro brechtiano em plena Alemanha. Intelectuais franceses como Sartre e Camus, opinavam  através de dramaturgias teatrais.
A arte nunca foi preocupação da esquerda, mas as lutas políticas sempre pautaram as artes. E isso foi problema ao capital. E o Capital logo encontrou um modos operandi de organizar a arte pra si.
Existem hoje grandes empresas que trabalham com produções culturais. Sejam elas na industria multimilionária do pop e das produções de festivais internacionais (dá um oi tickets for fun) até grandes produtores locais que utilizam o modus operandi da empresa capitalista para lucrar sobre os trabalhadores (que no caso são os artistas -inclusos ai cenógrafos, iluminadores, figurinistas, maquiadores, etc), e nisso inclui-se um patrocínio. E este patrocínio vem com um combo de ideologias da empresa, que só irá patrocinar aquilo que a agrada. Quanto maior o patrocínio, maior o marketing, mais pessoas irão adquirir aquele momento de lazer. E de forma alguma pode-se culpar produtores culturais e artistas por fazerem parte disso, é o mesmo que culpar trabalhadores por serem mão de obra de empresas. Entretanto, o mercado artístico é malvado, ou você aceita tais condições, ou não conseguirá sobreviver.
E por que não existem outras formas? Porque a arte não é uma preocupação da esquerda. Durante a época mais neoliberal deste país, surgiram vários coletivos de teatro colaborativo. Internacionalmente podemos citar o Theatre du Soleil, uma forma de teatro colaborativo e um modelo de que a arte não precisa seguir o modelo de uma empresa capitalista.
O capitalismo, no entanto, percebeu o poder que existe dentro das atividades lúdicas. Não é a toa que a Globo é o que é hoje. Não é a toa que uma das grandes industrias norteamericanas é o cinema Hollywoodiano. Não é a toa que grandes empresas utilizam o método do Teatro do Oprimido, pra aumentar a produtividade dos trabalhadores. Não é a toa que quando existem pessoas fantasiadas com personagens, mais crianças entram nas lojas e consomem. Não é a toa que existe um novo jogo cheio de ludicidade como o Pokemon GO que fez as ações da Nintendo aumentarem de forma absurda.
Mas a esquerda ao invés de buscar o direito do acesso a cultura ao trabalhador de forma ampla, de pensar que artistas também são trabalhadores e merecem os mesmos  direitos, de pensar em como todas essas atividades lúdicas podem empoderar o trabalhador, só critica essas atividades e coloca a arte e a ludicidade na caixinha do lazer tal como o capitalismo.
Existem várias formas de se explicar sobre mais valia, abuso de poder, racismo, machismo. Poucos proletários irão prestar atenção em panfletos enormes, falas em carro de som, textões no facebook. Porque a esquerda que cita tanto Paulo Freire, esquece-se de aplicar o diálogo no discurso, e traz apenas a lógica da educação bancária ao processo político. Esquece-se do lugar da ludicidade e de como jogos, brincadeiras, e formas artísticas facilitam o entendimento ao discurso.  Esquece-se que não haverá espaço para uma revolução onde a maioria do proletário defende os interesses da burguesia.

*este texto está no neutro masculino apenas para facilitar a concordância verbal. 

Machismo mata.

“ Muitos homens afirmam quase que com boa fé que as mulheres são iguais aos homens e nada têm a reivindicar, e ao mesmo tempo que as mulheres nunca poderão ser iguais aos homens e suas reivindicações são vãs. É que é difícil para o homem medir a extrema importância de discriminações sociais que parecem insignificantes de fora e cujas repercussões morais e intelectuais são tão profundas na mulher que podem parecer ter suas raízes numa natureza original. Mesmo o homem mais simpático à mulher nunca lhe conhece bem a situação concreta.”
( Simone de Beauvoir)

A última gafe do deputado Bolsonaro dizendo que “ não estupraria”  Maria do Rosário, por ela “ não merecer”, reacende a discussão de mulheres merecerem ou não serem estupradas. A pesquisa do IPEA feita no início do ano demonstrou que  segundo grande parte dos brasileiros, merecem. Essa mesma parte da população, provavelmente, é também parte do eleitorado do sr. Deputado Jair Bolsonaro.  E,  infelizmente, demonstra que suas opiniões machistas, homofóbicas e fundamentalistas, representam grande parte da população brasileira.
           Talvez, em resposta ao sr. Deputado,  passou pelo senado o PL que tipifica o feminicidio. Ora,  pra quê tudo isso? Essas feminazis tão querendo demais! Isso é privilégio.  Seria, então, um privilégio morrer por ser mulher? E qual seria desvantagem para os homens?  a desvantagem de não poder mais matar uma mulher por ser mulher?.
Mulheres morrem todos os dias por serem mulheres. Não apenas no sentido literal da palavra, mas morrem todas as vezes que ganham menos que um homem exercendo a mesma função no trabalho; morrem quando não são escolhidas para um emprego, mesmo tendo  o mesmo nível de  curriculum do homem escolhido, por querer ter filhos; morrem todos os dias no ônibus/metrô lotado, quando  se aproveitam dessa situação para abusarem de seus corpos; morrem todos os dias quando são julgadas por quererem exercer sua liberdade sexual; morrem todos os dias quando andam nas ruas e recebem buzinas e cantadas constrangedoras como se tivessem que receber aquilo como um elogio; morrem todos os dias quando não são respeitadas em um local por serem mulheres; morrem todos os dias quando dizem que elas não sabem dirigir, por serem mulheres; morrem todos os dias quando dizem que lugar de mulher é na cozinha; morrem todos os dias quando condenadas pelo próprio estupro; morrem todos os dias em relacionamentos abusivos; morrem quando dizem que foi merecido estupro por estar usando uma roupa curta, por estar bêbada, por estarem provocando um estuprador;
       O machismo mata. Mata uma, duas, milhares de mulheres por dia.  E continuará matando. A diferença é que talvez, agora, matar literalmente possa ter um tipo penal específico.

Poevida II

The water falls
In fountain
Like the words fall
In a poem by La fountain
The water falls
The water falls
Or could it be life that falls?
Life falls
Life falls
Is this my fault?

( Ana Carolina de Sousa, Agosto de 2014)

Ausência de luz. De alma

   O céu escuro iluminava meus pensamentos. Não que essa frase faça algum sentido, mas aquela vasta escuridão fazia com que meus pensamentos se iluminassem feito estrelas. Estrelas, porém, mortas. Uma estrela cadente, bela e brilhante no céu caindo em forma de pedra, meteoritamente sem graça.
Seus olhos profundos e esverdeados me olhavam do outro lado da rua. Olhos vazios. Olhos de lente fotográfica, que percebem mecanicamente a vida passar.  Ao cumprimentá-la, sorriu. Seguiu seu caminho. Não mais a vi, como uma cadente. Rápida, triste e encantadora. Antes que se pergunte, não a conhecia. Uma estranha do outro lado da rua com aqueles olhos que teimo em dizer que não a pertenciam, eram de alguém que convivi tempos atrás. Uma verdadeira estrela. Morta.
    Nostalgicamente começo a me lembrar de janeiro daquele ano. Foi quando Antares me deixou. Quando me deixou em corpo, pois em alma aqueles olhos já haviam me deixado há meses. Antares foi minha amante. Minha melhor amante. Casado com uma mulher bem mais velha que eu, sempre precisei de vários amores para não sentir diariamente o amargor do beijo com gosto de dólares. E como eu disse, dentre elas, Antares fora a melhor. Por exatamente 10 anos, minha fiel meretriz.
   Antares era puta. E das melhores. Trabalhava as terças, quartas e quintas. Mas, para mim, com horário especial às sextas. Ah, erámos dois loucos e apaixonados amantes. Seus olhos brilhavam quando me viam. Já havia se deitado com inúmeros homens, mas  seu coração guardava a pureza de uma virgem. Até me conhecer.
    Pouparei os detalhes românticos de quando nos conhecemos e nos apaixonamos.  Como já mencionei, por dez anos fomos fieis amantes.  Claro, fui fiel à todos meus amores.  Mas Antares era diferente, seu brilho era incontestável.  Talvez, por isso escolheram Antares para seu codinome no bordel. Era, sem dúvidas, uma estrela.
    Seus olhos, apesar  de fundos, brilhavam. E brilhavam ainda mais quando me via. Era incrível. Mas nem todo brilho é eterno, tenha isso em mente.  Caindo feito uma cadente. Aos poucos sua felicidade esvaiu-se.  Antares não mais era uma estrela. Não realizaria meus desejos. Apenas uma pedra. Oca. Olhos profundos. Nenhuma vontade de viver. Fingia estar feliz. E, assim, a perdi. Deixando apenas suas fracas encenações sobre o que sentia por mim.
    Não conseguia suportar a dor de perdê-la, sem ao menos entender o porquê. Seria tão difícil assim fazê-la voltar a (minha) vida?!. Comecei a imaginar que, talvez, sua alma teria sido vendida a algum outro varão qualquer.  Não conseguia mais dormir. Precisava de Antares como quem precisa de água no deserto.  Passava noites em claro imaginando-a sorrindo verdadeiramente para outro rapaz.  Por meses fiquei submerso num filme horror indescritível. Passei a imaginar coisas terríveis que não me atrevo a contar.
   Meses depois, resolvi, então, que precisava libertar sua alma. Antares deveria brilhar eternamente.  Fui visitá-la. Não saí do clichê, ofereci gentilmente a ela: uma taça de vinho tinto ( e cianureto). Talvez por obra do destino, seus olhos brilharam ao ver a taça. Antares sorria. Agora pálida, azul e livre.

Aos Capitães Nascimento de plantão.



“Bandido bom é bandido morto”

         Poucos dias após a polêmica opinião da  ~~~Jornalista~~~~  Rachel Sheherazade ( adote um bandido), surpreendeu-me a quantidade exacerbada de capitães nascimento caindo de paraquedas  em comentários do facebook, youtube e diversos blogs/ jornais que publicaram sobre a notícia. A opinião girou a respeito de um rapaz menor infrator (o marginalzinho, segundo a pseudojornalista), acusado por alguns moradores da região de roubo, que foi parar preso em um poste, nú, por um grupo denominado: ~~~~Justiceiros~~~~. E a questão que mais assombra em relação à toda essa polêmica não é apenas o fato de terem feito isso ao rapaz, mas sim o que a grande massa tem dito sobre JUSTIÇA.
         
            Afinal, o que é JUSTIÇA?  Em alguma aula de IED, essa pergunta me foi questionada. E só agora, dois anos depois, consigo ter uma ideia bem subjetiva do que seria a resposta prática. De qualquer forma, a cada dia torna-se mais clara a  ideia de que a justiça não é a justiça de Talião. Olho por olho e o mundo ficará cego, disse alguém.

            Não tem muito tempo, os capitães nascimento do facebook já haviam atacado, com aquele fato ocorrido entre o policial e o rapaz que havia roubado uma moto. Legítima defesa ou não, os comentários foram nessa mesma linha. Ora, ele roubou, tem que morrer. Não é homem de bem. E quem é homem de bem? Você? você que compra coisas no exterior e consegue entrar sem pagar impostos? Você que não devolve o troco errado? Você que vende/ compra bebida pra menor? Você que dá uns amassos no carro? Você, hipócrita de carteirinha que já fez algo que foge da moral e dos bons costumes, ou até mesmo já cometeu um crime ou infração.

             Uma coisa, pasmem, tenho que concordar com a dona Rachel: o sistema é falho. O mesmo direito penal que visa punir, prevenir e RESSOCIALIZAR, segrega. A cada dia que passa os complexos prisionais brasileiros experimentam mais o caos ( e os capitães ainda querem jogar nossas crianças, menores infratores lá). Entretanto, uma coisa é certa, a morte, a tortura de alguém que você ACHA que é criminoso ( o que só pode ser considerado após o transito em julgado), jamaaaaaaaaaaaaaaaaaais serão uma espécie de legitima defesa coletiva .Caetano tem algo a dizer sobre isso, sheherazade :
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             Você, cidadão de bem, que defende coisas assim, essa barbárie toda,  também defende um crime. Exercício arbitrário das próprias razões.  Art.345 do CP: “fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite”. A pena é detenção, de 15 dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência. Notável cidadão de bem, defensor da moral, dos bons costumes, da justiça e de todo esse blablabla, vai ser conivente com algo que superamos desde 1940?!

                        O que aconteceu com o rapaz que foi preso ao poste, independentemente do que ele tenha feito ( mesmo sabendo que criminoso ele não é, ECA meu bem, é no máximo menor infrator), foi desumano. O sistema realmente é falho, a começar pela educação que se de um lado falta a muitos e lhes tiram a oportunidade de serem bem sucedidos, a outros, falta na própria criação, a qual ensina que bandido é bom é bandido morto. A que ensina a segregar e dizer que não existe preconceito. É a que não ensina o que são direitos humanos, direitos universais. É a que forma você, meu querido cidadão de bem. A educação de um sistema falho que vem formando não só capitães de areia, mas também inúmeros capitães nascimento.

tirinha de André Dahmer


Outros olhos.

Naquela tarde ensolarada,  Joana fora se encontrar com uma velha amiga, Bianca. Há anos não se viam. Sua amiga do velho ginásio estava quase da mesma forma: linda e ruiva. Bianca parecia ter tomado banho em formol por todos esses anos.  Encontraram-se em um velho café, na esquina da antiga casa de Bianca. Conversavam. Bem, quase isso. Joana ouviu dizer, certa vez, que algumas pessoas não escutam o que a outra diz, apenas, por cordialidade, esperavam sua vez de falar. Isso se aplicava bem a Bianca. A ruiva dos olhos esverdeados conseguia ser mais tagarela que Joana, e sem nenhuma dificuldade, ignorava o que a amiga dizia, pra contar sua próxima história. A única coisa que havia mudado, aparentemente, desde os tempos do ginásio, era o sorriso de Bianca, que, agora, estava sem nenhum metal. Joana, após algum tempo, fingia escutar. Apenas observava a ruiva falar, falar, falar. Não entendia como eram amigas. Ou como ainda podiam se chamar assim. Seus assuntos se tornaram tão distantes. E a única coisa que as uniam era um laço feito há tempos atrás. As velhas histórias. Por um momento, Joana pensara que Bianca estava muito diferente de anos atrás, sua amiga costumava ser tão legal. Chegou, então, à conclusão de que talvez fosse ela mesma, ela que havia se tornado uma chata. Ou apenas, agora, via o mundo por outro viés. Nada é pra sempre. Ainda bem, pensou. Até breve, disse, sabendo que não se veriam tão cedo.

Prova de amor.

Três vidas não seriam suficiente para amá-lo como o amou.  Sete séculos não seriam o bastante para fazer tudo que ela achava necessário fazer por ele. Nenhum ser vivo no planeta poderia compreender quão intenso era o que ela sentia.  Ele não era dela. Ela não era dele. Ele era apenas dele. Ela era apenas dela. Cada qual em sua bolha. Cada qual em seu mundinho de coisas inúteis. Ela era hipérbole. Ele era eufemismo.  Resolveu, então, ela, no ápice de seu amor imensurável e totalmente imerso no fundo de um coração petrificado  pelo tempo,  enfiar-lhe uma faca em seu peito enquanto repousava. Ora, ora.  “Que prova maior de amor poderia lhe dar, do que a vida eterna?” pensou enquanto limpava cuidadosamente aquelas gotas vermelhas vermelhas vermelhas do lençol .